Introdução
Este artigo está enfocando um tema de extrema importância
na vida prática da Igreja que é o culto a Deus. O assunto é pertinente
porque hoje mais do que em qualquer outra época o culto a Deus está
perdendo as suas características conforme definidas nas Sagradas
Escrituras. Há fogo estranho no arraial de Deus. Muitos do povo de Deus,
seguindo as orientações de líderes que não conhecem a doutrina cristã,
ou se as conhecem estão deliberadamente fugindo do padrão que o
Altíssimo definiu para disciplinar o assunto, estão adorando a Deus de
uma forma errada, de qualquer jeito e de qualquer maneira, onde o homem
ocupa o lugar de Senhor e Deus o lugar de servo. Além disso, estão
introduzindo muitas práticas estranhas para agradar ao adorador e não ao
objeto da adoração que é o Deus Verdadeiro.
Neste artigo iremos
abordar o assunto de forma introdutória enfocando a parte teológica da
questão, partindo do geral para o particular, começando explicando o
título do artigo.
A palavra Teologia é uma palavra derivada de duas
palavras gregas: Theos – Deus e Logos (logia) – estudo, tratado. Assim
sendo, de uma forma simplificada, podemos conceituar Teologia como sendo
o estudo acerca de Deus. “Comumente a Teologia se divide em Bíblica,
Sistemática, Histórica, e Prática” (STRONG). Este artigo enfoca uma
parte da Teologia Prática, que é o estudo das práticas do relacionamento
do cristão com Deus; A palavra culto é de origem latina (cultus), e
significa, dentre outras coisas, reverência, homenagem que se presta a
uma divindade, ofício religioso; Teologia do Culto é, portanto, o estudo
da maneira como se deve prestar o culto a Deus de uma forma que Lhe
seja agradável.
I – Um Relance da Questão Cultual na História
As manifestações cultuais estão em quase todas as culturas. O homem
desde os tempos mais remotos sempre teve uma reverência por um ser
superior a quem tem procurado agradar. É verdade que pela falta de
conhecimento do verdadeiro Deus o homem tem se dobrado diante do sol, da
lua, das estrelas, de estátuas, pinturas, totens reverenciando uma
divindade qualquer, adorando a criatura no lugar do Criador. Na Bíblia
nos é revelado esse aspecto religioso dos povos, por Paulo, em seu
escrito aos Romanos. “Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram
como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se
fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios,
tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens
feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros,
quadrúpedes e répteis” Rm 1.21,22. Paulo está aqui falando que, por
causa do descaso do homem para com a revelação que Deus fez de si mesmo
através da natureza (A Revelação Geral), tem-se cultuado de forma
errada, servindo a criatura em vez do Criador. No discurso de Paulo no
areópago, registrado em Atos 17, encontramos o apóstolo falando sobre o
aspecto religioso dos gregos, que era a maior cultura da época, fazendo
referência aos deuses que existiam nos seus locais de adoração. “...
porque passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar
em que estava escrito: Ao Deus Desconhecido...” At 17.22,23.
II - Identificando o Objeto do Culto (O Deus Triúno)
O objeto do culto é o Deus verdadeiro, revelado na natureza e nas
Sagradas Escrituras. A Bíblia nos revela que só a Deus é devido o culto.
“... Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto” Mt 4.10.
Quando se fala em Deus deve-se pensar no Deus triúno, na Santíssima
Trindade. As Sagradas Escrituras nos revelam que só existe um Deus
verdadeiro (Dt 6.4; 1 Co 8.4; 1Tm 2.5;...) e que esse Deus subsiste em
três pessoas da mesma essência e possuidoras dos mesmos atributos, o
Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt 3.16,17; 28.19; Jo 14.16,17; 2 Co
13.13;...). Assim sendo, as três pessoas da Santíssima Trindade podem
ser celebradas individualmente ou em conjunto e assim estamos adorando a
Deus. Existe uma unidade tão perfeita na Deidade que adorando a uma
pessoa as outras estão sendo adoradas também. Quando celebramos ao Pai
estamos ao mesmo tempo celebrando ao Filho e ao Espírito Santo. A mesma
coisa acontece quando tributamos hinos a Cristo, estamos também
tributando hinos ao Pai e ao Espírito e quando celebramos ao Espírito
estamos celebrando as outras duas pessoas da Trindade. Na hinologia
Congregacional (Salmos e Hinos) temos alguns hinos que celebram as três
pessoas da Trindade conjuntamente como, por exemplo, o hino de nº 29 que
destina uma estrofe ao Pai (Eterno Pai, Teu povo congregado,...) outra
ao Filho (Jesus, aos Teus benditos pés sentados,...) e outra ao Espírito
Santo (Ensina aos Teus, Espírito divino,...). Não estamos adorando a
três deuses e sim a um único Deus verdadeiro que subsiste em três
pessoas. Considerando que Jesus é o Mediador entre Deus e os homens (Jo
14.6; 1 Tm 2.5; Hb 8.6;...) toda a adoração a Deus deve ser feita em
Cristo (2 Co 5.17; Ef 1.13 ) e por Cristo (Ef 2.18; Hb 13.15; 1 Pe 2.5)
para ser agradável ao Altíssimo.
III – Identificando os Verdadeiros Adoradores
Cultuar a Deus é uma obrigação de todo os seres humanos. Essa
exigência divina no devido tempo será cobrada do homem. Paulo escrevendo
aos Romanos nos revela que, pelo fato de Deus ter se revelado através
da natureza, todo o homem é indesculpável diante Dele por não Lhe
prestar o culto devido. “Porque, tendo conhecido a Deus, não o
glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos
tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se.
Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus
imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem
como de pássaros, quadrúpedes e répteis” Rm 1.21-23.
A adoração
a Deus só se expressa de forma satisfatória por aquelas pessoas que
foram alcançadas pela graça redentora de Cristo, isso tanto no Antigo
como no Novo Testamento, tanto na antiga como também na nova
dispensação. A Bíblia nos revela que os crentes em Cristo foram
constituídos por Deus sacerdócio santo para celebrar ao Senhor neste
mundo e na eternidade. “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio
real, a nação santa, o povo adquirido...” 1 Pe 2.9. (Veja ainda Ap 1.6;
5.10). “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e
sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a
Deus por Jesus Cristo” 1 Pe 2.5. “Portanto ofereçamos sempre por ele a
Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o
seu nome” Hb 13.15.
A Igreja é uma comunidade cultual. Dentre
suas atribuições ministeriais a adoração a Deus vem em primeiro lugar,
seguida da edificação espiritual dos crentes, da proclamação da obra
redentora e depois, da beneficência.
IV – Identificando as Partes Constitutivas do culto
Observando
a prática cultual do povo de Deus identificada nas Sagradas Escrituras,
principalmente no Novo Testamento, constatamos que existem quatro
partes básicas num culto tributado a Deus: A Oração, A leitura e
exposição das Sagradas Escrituras, o Louvor e o ofertório.
1) A
Oração – Quando estavam cultuando os servos do Senhor sempre elevavam
as suas vozes a Deus em súplicas e orações. Assim foi com Ana que na
tenda da Congregação orava a Deus pedindo um filho (1 Sm 1.9-19).
Dizem-nos as Escrituras que a profetiza Ana, filha de Fanuel, da tribo
de Aser, não se afastava do templo orando e jejuando ao Senhor (Lc
2.36-38). Diz-se da Igreja de Antioquia que os irmãos se reuniam para
jejuar e orar ao Senhor (At 13.1-3). A Igreja de Jerusalém diz-nos
Lucas, que ela perseverava em oração (At 2.41,42).
2) Leitura e
Exposição das Sagradas Escrituras – As Escrituras devem ocupar lugar
preponderante nos cultos celebrados pela Igreja. Sempre foi assim na
história do povo de Deus. Nas festividades religiosas de Israel alguns
livros das Escrituras eram lidos publicamente e outros lidos e
explicados (Ne 8.1-12); nas Sinagogas as Escrituras eram lidas e
explicadas ao povo (Lc 4.14-21); Nas reuniões da Igreja as Escrituras
eram lidas e expostas segundo se extrai dos textos de At 6.1-4; 8.4;
13.44; 17.11;...
3) Louvor – A Bíblia diz que os crentes são
sacerdotes reais (1 Pe 2.9; Ap 1.6; 5.10) e têm um ministério de louvor a
exercer na Igreja. “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa
espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais
agradáveis a Deus por Jesus Cristo.” 1 Pe 2.5. “Portanto ofereçamos
sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, Isto é, o fruto dos lábios
que confessam o seu nome” Hb 13.15. Um dos grandes momentos do culto é
quando o povo uníssono louva ao Deus dos Céus com alegria e gratidão no
coração. Encontramos na Bíblia dois episódios que mostram como é
maravilhoso louvar ao Senhor. Um foi na época do rei Josafá quando a
vitória sobre os inimigos do povo de Deus foi concedida no momento em
que o povo celebrava ao Senhor (2 Cr 20.21-24) e o outro foi quando
Paulo e Silas estavam aprisionados e, mesmo em circunstâncias difíceis,
celebravam ao Senhor, advindo daí uma poderosa ação libertadora de Deus
(At 16.25,26).
4) Ofertório – Faz parte do culto a Deus o ofertório.
Nos cultos a Deus, ao longo do relato bíblico, encontramos sempre alguém
oferecendo algo a Deus no momento em que cultuava. No primeiro culto
que a Palavra de Deus nos apresenta encontramos Caim e Abel oferecendo a
Deus algo: Caim, do fruto da terra e Abel, das primícias do seu rebanho
(Gn 4.1-5). Após o dilúvio, a primeira coisa que o patriarca Noé fez
ao descer da arca foi fazer um culto a Deus e nesse culto ofereceu sobre
o altar animais e aves limpos (Gn 8.15-22). Os patriarcas bíblicos
sempre quando cultuavam a Deus ofereciam algo ao Senhor. Abraão, um
deles, entregou o seu dízimo ao sumo sacerdote Melquisedeque (Gn
14.18-20). No Novo Testamento as ofertas feitas na Igreja não eram mais
de animais ou de aves, pois, aquelas oferendas simbolizavam o sacrifício
de Cristo que já acontecera. No relato de Atos encontramos os irmãos
cultuando a Deus através da oferta de suas propriedades para atendimento
das necessidades da Igreja (At 4.32-35). Nesse relato é identificado o
nome de Barnabé que doou a Igreja o valor correspondente a propriedade
que vendera (At 4.36,37). Na segunda carta aos Coríntios Paulo fala
sobre a contribuição para o atendimento das necessidades da Igreja
especialmente a da beneficência (capítulos 8 e 9).
V – Identificando o Local Adequado do Culto
No
antigo Testamento os servos de Deus cultuavam a Javé em lugares
aleatórios, geralmente onde ocorria uma manifestação de Deus (Gn 12.6-8;
28.10-22,...). Com a construção do tabernáculo (templo portátil) o
culto era realizado nele (Ex 40.17-38). Depois que Salomão em Jerusalém
edificou o templo ali ficou sendo o local onde o Deus dos céus era
adorado, através das festividades e dos sacrifícios, realizado pelo povo
mediante o ofício de seus sacerdotes (1 Rs 9.1-3). Uma comunidade
dissidente em Israel (os samaritanos) estabeleceu que o culto fosse
realizado num monte em Samaria (Jo 4.20,21). No Evangelho de João o
Senhor Jesus Cristo nos revelou que não existe um local específico
estabelecido por Deus para se fazer o culto, e sim em qualquer lugar em
que o Seu nome fosse celebrado em espírito e em verdade (Jo 4.21-24). No
princípio a Igreja de Jerusalém se reunia numa área do templo de
Jerusalém, chamada de alpendre de Salomão (At 2.46; 5.12,42) e também
nas casas dos irmãos (At 5.42). No mundo gentílico a Igreja se reunia
nas casas de seus membros (Rm 16.3-5,14,15).
Um local específico (um
templo), separado só para culto, como nós o conhecemos, começou a
surgir com a suspensão das perseguições contra o Cristianismo, por
Constantino, imperador romano. A religião cristã fora aceita pelo
imperador, que facilitou a construção de santuários.
A luz da Bíblia,
o local do culto não é tão relevante assim. O que faz o local do culto
importante não são as suas instalações e sim a presença da Igreja nele,
pois Deus habita na vida e no meio do seu povo. “... vós sois o templo
do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei;
e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” 2 Co 6.16.
Conclusão
Vimos
neste artigo o que significa a teologia do culto. Vimos ainda um pouco
da história do culto de uma forma geral. Vimos ainda que o Deus Triúno é
o objeto do culto. Vimos também que só os redimidos é que tem condições
de prestar o culto a Deus que Lhe seja agradável, por causa da mediação
de Cristo, e que é um dever de todos celebrarem ao Senhor pelo que Ele é
e pelo que Ele fez. Vimos ainda que o local em si não é tão relevante
como se pensa e sim a presença da Igreja nele é que faz a diferença.
Estamos
concluindo este artigo enfatizando a necessidade dos crentes em Cristo
levarem a sério a questão cultual na Igreja, pois o culto é um dever de
todos os homens especialmente do homem que foi alcançada com a graça
redentora de nosso Senhor Jesus Cristo.
Pr. Eudes Lopes Cavalcanti
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